Tipos de demência: Alzheimer, Vascular, Corpos de Lewy, Frontotemporal e LATE
Por Tatiana Joly — Neuropsicóloga | CRP 06/95973
Quando uma pessoa idosa começa a apresentar esquecimentos frequentes, uma pergunta costuma surgir rapidamente na família:
“Será que é Alzheimer?”
A associação é compreensível. A doença de Alzheimer é a causa de demência mais conhecida e uma das mais frequentes na população idosa.
Mas existe uma informação importante que ainda gera muita confusão: demência e Alzheimer não são sinônimos.
Demência é um termo amplo, utilizado para descrever um conjunto de alterações cognitivas e, em alguns casos, comportamentais que se tornam significativas a ponto de interferir na autonomia e nas atividades da vida cotidiana. Diferentes doenças e processos cerebrais podem provocar esse quadro. E isso faz diferença. Porque nem toda demência começa com esquecimento. Nem toda pessoa apresenta os mesmos sintomas. Nem todas evoluem da mesma maneira.
E, às vezes, mais de uma condição pode estar presente ao mesmo tempo.
Por isso, compreender os diferentes tipos de demência é um passo importante para entender também por que uma avaliação cuidadosa vai muito além de verificar se uma pessoa “está esquecendo”.
Primeiro: demência não é uma doença única
Podemos pensar em “demência” como um termo que descreve uma condição clínica, e não necessariamente uma única doença. Para caracterizar um quadro demencial, não basta que a pessoa esqueça nomes ou demore um pouco mais para lembrar onde deixou determinado objeto. É preciso considerar se existem alterações cognitivas significativas e se elas passaram a interferir no funcionamento cotidiano. Isso pode envolver memória, atenção, linguagem, raciocínio, percepção visuoespacial, funções executivas e também mudanças comportamentais.
A demência também não deve ser considerada uma consequência normal do envelhecimento. Algumas mudanças cognitivas podem acontecer com a idade, mas quando existe perda de funcionamento e de autonomia, é necessário investigar. E é justamente nessa investigação que começam a aparecer as diferenças.
Doença de Alzheimer: a mais conhecida, mas não a única
A doença de Alzheimer é o diagnóstico de demência mais comum entre adultos mais velhos. No cérebro, está associada, entre outros processos, ao acúmulo anormal das proteínas beta-amiloide e tau. Em sua apresentação mais típica, uma das manifestações iniciais mais conhecidas é a dificuldade para aprender e guardar informações novas. A pessoa pode repetir a mesma pergunta diversas vezes. Esquecer uma conversa que aconteceu há pouco. Contar novamente uma história sem perceber que já a contou. Ou precisar cada vez mais de anotações e da ajuda de familiares para lembrar compromissos que antes administrava sozinha.
À medida que a doença evolui, outras funções cognitivas e aspectos do funcionamento cotidiano também podem ser comprometidos.
Mas existe um cuidado importante: Alzheimer não se manifesta exatamente da mesma maneira em todas as pessoas, e também existem apresentações menos típicas. Por isso, mesmo uma alteração importante de memória não é suficiente, isoladamente, para determinar a causa.
Demência vascular: quando precisamos olhar também para a saúde dos vasos cerebrais
Outro grupo importante envolve o comprometimento cognitivo vascular.
Nesse caso, as alterações cognitivas estão relacionadas a doenças que afetam os vasos sanguíneos ou comprometem o fluxo de sangue e oxigênio para o cérebro. Acidentes vasculares cerebrais e outras lesões vasculares podem participar desse processo. E aqui aparece uma diferença interessante, enquanto muitas pessoas associam demência principalmente à memória, nos quadros vasculares podem chamar atenção dificuldades em outras funções, como: atenção, velocidade de processamento, planejamento, organização e outras funções executivas.
Imagine uma pessoa que antes conseguia organizar pagamentos, preparar uma refeição seguindo várias etapas ou resolver problemas cotidianos com facilidade. Ela continua lembrando de muitas coisas, mas começa a ficar mais lenta, perde-se nas etapas de uma tarefa ou apresenta dificuldade para organizar o que precisa fazer. Dependendo das regiões cerebrais afetadas, o perfil pode variar bastante. Em alguns casos, a evolução também pode ocorrer de maneira diferente daquela observada na doença de Alzheimer.
É por isso que olhar apenas para a memória pode deixar escapar informações importantes.
Demência com corpos de Lewy: quando cognição, movimento, sono e percepção se encontram
A demência com corpos de Lewy está associada ao acúmulo anormal de uma proteína chamada alfa-sinucleína. Esses depósitos são conhecidos como corpos de Lewy. Uma de suas características mais interessantes é justamente a combinação de diferentes manifestações. A pessoa pode apresentar flutuações cognitivas. Em determinados momentos parece estar bastante atenta e participativa. Em outros, pode ficar muito mais confusa, sonolenta ou desconectada. Também podem aparecer alucinações visuais recorrentes, muitas vezes bem estruturadas. Além disso, podem surgir características semelhantes às observadas na doença de Parkinson, como lentificação dos movimentos e rigidez. Alterações importantes do sono também podem estar presentes.
Por isso, quando a família relata: “Tem dias em que parece muito bem e, em outros momentos, parece outra pessoa” essa informação pode ser clinicamente relevante.
Mais uma vez, não significa que uma flutuação ou uma alucinação isolada determine um diagnóstico. Significa que o padrão das alterações importa.
Demências frontotemporais: quando a primeira mudança pode não estar na memória
Talvez as demências frontotemporais sejam um dos melhores exemplos de porque não devemos reduzir demência a “problema de memória”. Elas estão associadas à degeneração de regiões frontais e temporais do cérebro e podem envolver alterações relacionadas, entre outros mecanismos, às proteínas tau ou TDP-43. Dependendo da apresentação, as primeiras mudanças podem aparecer predominantemente no comportamento e na personalidade. Uma pessoa anteriormente cuidadosa e socialmente adequada pode começar a apresentar atitudes impulsivas ou inadequadas. Outra pode ficar progressivamente apática, perdendo iniciativa e interesse por atividades que antes faziam parte de sua rotina. Podem ocorrer mudanças nos hábitos alimentares, na capacidade de julgamento, na empatia ou no controle dos impulsos. Em outras apresentações, o comprometimento da linguagem pode ser mais evidente. A pessoa começa a ter dificuldade para encontrar palavras, compreender determinados significados ou construir a fala como fazia anteriormente. As funções executivas, como planejamento, organização e controle do comportamento, também podem ser afetadas. E a memória pode não ser o principal sintoma no início.
Isso ajuda a entender situações em que a família inicialmente interpreta a mudança como: “Ele ficou teimoso.” “Ela não se importa mais com nada.” “Parece que a personalidade mudou.” Às vezes, mudanças comportamentais persistentes também merecem uma investigação cognitiva e neurológica.
LATE: uma condição ainda pouco conhecida
Agora chegamos a uma condição sobre a qual provavelmente muitas pessoas nunca ouviram falar: LATE. A sigla vem de Limbic-predominant Age-related TDP-43 Encephalopathy, uma condição neuropatológica relacionada ao acúmulo anormal da proteína TDP-43, predominantemente em estruturas cerebrais límbicas importantes para a memória. E existe uma razão para ela merecer atenção: a LATE pode se parecer muito com a doença de Alzheimer.
Pessoas com alterações neuropatológicas relacionadas à LATE frequentemente apresentaram, durante a vida, uma síndrome amnéstica progressiva difícil de distinguir clinicamente de comprometimento cognitivo leve ou demência devido à doença de Alzheimer. Ou seja, podemos ter uma pessoa idosa com perda progressiva de memória e, olhando apenas para os sintomas, pensar imediatamente em Alzheimer. Mas o processo neuropatológico subjacente pode ser diferente.
Por que estamos falando mais sobre LATE agora?
A LATE não surgiu recentemente. O que é relativamente recente é nossa capacidade de reconhecer e organizar melhor o conhecimento sobre essa condição.
O consenso que estabeleceu a nomenclatura LATE foi publicado em 2019, e a investigação científica avançou desde então. Em janeiro de 2025, pesquisadores publicaram os primeiros critérios clínicos de consenso propondo uma estrutura para identificar casos de LATE provável ou possível durante a vida. Isso é particularmente importante porque a LATE parece ter relevância sobretudo nas idades mais avançadas. Os critérios clínicos de 2025 descrevem como perfil típico uma síndrome predominantemente amnéstica, de evolução progressiva, geralmente em pessoas com mais de 75 anos, associada a atrofia hipocampal significativa.
Há ainda um dado interessante: entre pessoas com 85 anos ou mais que apresentam uma síndrome amnéstica, os autores estimam que aproximadamente 20% podem ter LATE-NC como patologia predominante. Isso ajuda a explicar por que essa condição se tornou tão relevante para a pesquisa sobre demências em pessoas muito idosas.
LATE e Alzheimer são a mesma coisa? Não. Embora possam produzir manifestações clínicas semelhantes, os processos neuropatológicos são diferentes. Na doença de Alzheimer, o processo está relacionado principalmente às alterações de beta-amiloide e tau. Na LATE, o principal marcador neuropatológico é a TDP-43. Mas existe algo que torna essa história ainda mais interessante: Alzheimer e LATE podem coexistir.
Não precisamos necessariamente pensar em uma condição ou outra.
Em pessoas de idade muito avançada, é relativamente comum que diferentes alterações neuropatológicas estejam presentes simultaneamente.
E quando alterações relacionadas à LATE aparecem junto com a neuropatologia da doença de Alzheimer, os estudos indicam associação com uma evolução cognitiva mais rápida do que aquela observada, em média, no Alzheimer isolado. Isso nos leva a um conceito cada vez mais importante quando falamos sobre demências: patologias mistas.
Uma pessoa pode ter mais de um tipo de alteração cerebral?
Sim. Essa talvez seja uma das informações mais importantes deste artigo. Na vida real, especialmente em pessoas muito idosas, o cérebro nem sempre apresenta uma única doença perfeitamente isolada. Uma pessoa pode apresentar alterações da doença de Alzheimer associadas a doença cerebrovascular. Pode haver Alzheimer associado à LATE. Outras combinações também podem ocorrer.
O próprio National Institute on Aging ressalta que algumas pessoas apresentam mais de uma forma de demência, o que pode tornar o diagnóstico mais complexo. Por isso, perguntar apenas:“Qual demência essa pessoa tem?” pode ser mais simples do que a realidade biológica permite. Às vezes, a pergunta clínica precisa ser: “Quais processos podem estar contribuindo para o funcionamento cognitivo desta pessoa?” É possível diagnosticar LATE durante a vida?
Aqui precisamos fazer uma distinção importante.
A identificação definitiva da alteração neuropatológica da LATE (LATE-NC) continua dependendo da demonstração da patologia relacionada à TDP-43.
Atualmente, ainda não existe um biomarcador de fluido ou de neuroimagem validado e específico para a TDP-43 que permita confirmar rotineiramente a LATE da mesma maneira que já conseguimos investigar aspectos da biologia da doença de Alzheimer. Entretanto, isso não significa que a LATE só possa ser discutida depois da morte. Os critérios publicados em 2025 propõem categorias clínicas de LATE provável e possível, utilizando o perfil clínico, características de neuroimagem e biomarcadores de Alzheimer para aumentar ou diminuir a probabilidade de determinadas hipóteses. É um avanço importante.
Mas também exige cautela: esses critérios são recentes e os próprios autores destacam que precisam de validação adicional e que novos biomarcadores para TDP-43 serão fundamentais no futuro. Portanto, não faz sentido transformar LATE em mais um diagnóstico para ser reconhecido por uma lista de sintomas na internet.
“Então como saber qual é a causa?”
É justamente aqui que entra uma avaliação cuidadosa. Quando uma pessoa apresenta mudanças cognitivas, precisamos entender muito mais do que se ela esquece. Precisamos perguntar: Quando as mudanças começaram? Qual função parece ter sido afetada primeiro? A evolução foi lenta e progressiva ou aconteceu de outra maneira? A memória é realmente a principal dificuldade? Existem alterações na linguagem? Houve mudanças de comportamento ou personalidade? Existem dificuldades visuoespaciais? Há flutuações importantes ao longo do dia? A pessoa apresenta alterações motoras? Como está o sono? Há histórico de AVC ou fatores de risco vascular? Quanto essas mudanças interferem na autonomia? Essas informações ajudam a construir o perfil clínico. E esse perfil pode orientar quais hipóteses precisam ser investigadas.
Onde entra a avaliação neuropsicológica?
A avaliação neuropsicológica pode contribuir de maneira importante para compreender quais funções cognitivas estão preservadas e quais apresentam alterações, além da intensidade e do padrão dessas dificuldades. Não se trata apenas de aplicar um “teste de memória”. Podem ser investigadas funções como:
- memória e aprendizagem;
- atenção;
- velocidade de processamento;
- linguagem;
- funções executivas;
- habilidades visuoespaciais;
Além de aspectos comportamentais e do funcionamento cotidiano. Imagine duas pessoas que chegam à avaliação com a mesma queixa: “Está esquecendo muito.” Na primeira, a avaliação pode revelar uma dificuldade importante para aprender e armazenar novas informações. Na segunda, a pessoa pode até aprender adequadamente, mas apresentar lentificação, dificuldades atencionais e problemas importantes de planejamento. Para a família, ambas “esquecem”. Do ponto de vista neuropsicológico, os padrões podem ser bastante diferentes. E essa diferença importa.
A avaliação neuropsicológica não determina sozinha a etiologia de uma demência e não substitui a investigação médica, os exames laboratoriais, a neuroimagem ou, quando indicados, os biomarcadores.
Ela é uma parte da investigação, contribuindo para caracterizar o perfil cognitivo e funcional e para integrar as informações clínicas. Diretrizes recentes para investigação das doenças de Alzheimer e demências relacionadas reforçam justamente a necessidade de uma avaliação diagnóstica estruturada e reconhecem, entre os principais diagnósticos diferenciais, comprometimento vascular, demência com corpos de Lewy, demências frontotemporais e LATE.
Por que diferenciar os tipos de demência é tão importante?
Porque um diagnóstico mais preciso pode modificar a forma como compreendemos o presente e planejamos o futuro. Ajuda a orientar a investigação. Contribui para decisões terapêuticas. Ajuda a família a entender determinados comportamentos. Permite antecipar algumas necessidades de cuidado. Favorece adaptações no ambiente e na rotina. E pode evitar interpretações equivocadas. Uma mudança de comportamento pode ser entendida como “falta de educação”. Uma alucinação pode ser tratada apenas como um fenômeno psiquiátrico. Uma dificuldade de planejamento pode parecer “preguiça”. Uma alteração de linguagem pode ser confundida com esquecimento.
Quando compreendemos melhor o padrão das mudanças, começamos também a interpretar o comportamento de outra maneira.
Nem todo esquecimento significa demência
Assim como nem toda demência é Alzheimer, nem todo problema de memória significa demência.
Sono inadequado, ansiedade, depressão, efeitos de medicamentos, condições clínicas, alterações sensoriais e diversas outras situações podem interferir no funcionamento cognitivo. Além disso, algumas mudanças podem ocorrer no envelhecimento sem representar uma doença neurodegenerativa.
A diferença está justamente no conjunto:
intensidade, frequência, progressão e impacto na vida cotidiana.
Por isso, quando existe uma mudança persistente em relação ao funcionamento anterior da pessoa, especialmente quando começa a comprometer sua autonomia, o caminho não deve ser tentar descobrir o diagnóstico por conta própria. É procurar uma avaliação adequada.
Quando a família deve procurar ajuda?
Algumas mudanças merecem atenção quando passam a ocorrer de maneira persistente ou progressiva.
Por exemplo, quando a pessoa começa a repetir frequentemente as mesmas perguntas, perde-se em locais conhecidos, apresenta dificuldade crescente para administrar dinheiro ou medicamentos, deixa de conseguir realizar atividades que antes dominava, apresenta mudanças importantes de comportamento ou linguagem ou passa a necessitar de ajuda em tarefas que anteriormente fazia sozinha.
Também merecem atenção alterações importantes de percepção, movimento, sono ou flutuações cognitivas quando aparecem associadas a mudanças no funcionamento. Nenhum desses sinais, isoladamente, determina qual doença está presente. Mas eles podem indicar que é hora de investigar.
O diagnóstico começa entendendo o padrão das mudanças
Talvez essa seja a principal mensagem deste artigo.
Diante de uma pessoa com alterações cognitivas, não deveríamos começar tentando encaixá-la rapidamente em um diagnóstico.
Primeiro precisamos compreender:
O que mudou?
Como mudou?
Quando começou?
Como está evoluindo?
E quanto isso interfere na vida dessa pessoa?
Alzheimer, comprometimento cognitivo vascular, demência com corpos de Lewy, demências frontotemporais e LATE podem apresentar características diferentes e, em alguns casos, mais de um processo pode estar presente.
A ciência também continua avançando. A própria LATE é um ótimo exemplo disso. Hoje compreendemos melhor uma condição que durante muitos anos pode ter contribuído para quadros considerados clinicamente como doença de Alzheimer, principalmente em pessoas muito idosas. Conhecer essas diferenças não serve para que famílias façam diagnósticos. Serve para algo muito mais importante: perceber que mudanças cognitivas merecem ser compreendidas com cuidado.
Porque quanto melhor compreendemos o que está acontecendo, melhores podem ser as decisões sobre acompanhamento, tratamento, adaptações, segurança, autonomia e qualidade de vida.
Informação não substitui avaliação.
Mas informação também é cuidado.
Referências científicas e fontes de consulta
National Institute on Aging (NIA). What Is Dementia? Symptoms, Types, and Diagnosis. Informações sobre doença de Alzheimer, demência frontotemporal, demência com corpos de Lewy e demência vascular. NIA
National Institute on Aging (NIA). Understanding Different Types of Dementia. Comparação entre doença de Alzheimer, demência frontotemporal, demência com corpos de Lewy e demência vascular. Atualizado em 2025. NIA
Wolk DA, et al. Clinical criteria for limbic-predominant age-related TDP-43 encephalopathy. Alzheimer's & Dementia. 2025;21(1):e14202. Critérios clínicos propostos para LATE provável e possível. Alzheimer’s Association
Atri A, et al. Alzheimer's Association clinical practice guideline for the Diagnostic Evaluation, Testing, Counseling, and Disclosure of Suspected Alzheimer's Disease and Related Disorders (DETeCD-ADRD). Alzheimer's & Dementia. 2025.
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