TDAH em adultos aumenta o risco de demência? O que a ciência já sabe

Por Tatiana Joly - Psicóloga e Neuropsicóloga · CRP 06/95973

No consultório, eu ouço essa pergunta com cada vez mais frequência: “Tati, eu tenho TDAH. Isso quer dizer que vou ter demência?” Às vezes ela vem de um adulto que acabou de receber o diagnóstico. Outras vezes, de um filho preocupado com o pai que sempre foi “desligado” e agora parece esquecer mais.

A resposta curta é: não, ter TDAH não significa que você terá demência. Mas a ciência dos últimos anos trouxe um recado importante, que merece ser levado a sério sem alarmismo: adultos com TDAH, especialmente quando o transtorno não é tratado, parecem ter um risco maior de desenvolver demência no envelhecimento. E boa parte dos fatores que explicam essa ligação pode ser modificada.

Neste artigo, vou explicar o que os estudos mostram, como interpretar os números com calma e o que fazer, na prática, para proteger o cérebro ao longo da vida.

O que as pesquisas mostram

O estudo que colocou o tema em destaque foi publicado em 2023 na revista JAMA Network Open. Pesquisadores acompanharam mais de 109 mil pessoas em Israel, que tinham entre 51 e 70 anos no início, por cerca de 17 anos. Ao final, a demência apareceu em 13,2% das pessoas com TDAH adulto, contra 7,0% das pessoas sem o diagnóstico. Mesmo depois de considerar outros fatores, como depressão, hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo e traumatismo craniano, o TDAH continuou associado a um risco cerca de 2,8 vezes maior de demência (Levine et al., 2023).

Dois detalhes desse estudo chamam atenção. O primeiro é que a associação foi ainda mais forte para a demência de início precoce, antes dos 65 anos. O segundo é o ponto que dá título a este artigo: entre as pessoas com TDAH que usavam medicação psicoestimulante, não houve aumento claro do risco. O aumento ficou concentrado em quem não estava em tratamento medicamentoso.

Em outubro de 2026, um novo estudo publicado na JAMA Psychiatry reforçou esses achados em outra população. A pesquisa, liderada pela Universidade de Pittsburgh e com participação de pesquisadores brasileiros, incluindo o grupo do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, analisou dados clínicos e genéticos de mais de 187 mil adultos acima de 50 anos nos Estados Unidos. Comprometimento cognitivo ou demência apareceram em 6,7% das pessoas com TDAH, contra 3,4% das pessoas sem TDAH. Ajustando para idade, sexo e outras condições de saúde, o risco foi mais de quatro vezes maior (Leffa, Bauer-Negrini et al., 2026).

Esse estudo trouxe duas novidades importantes:

  • A ligação aparece também nos genes. Pessoas com maior carga genética para TDAH tiveram cerca de 35% mais chance de desenvolver demência, mesmo sem nunca terem recebido o diagnóstico.
  • Não parece ser só confusão diagnóstica. A associação se manteve mesmo quando os pesquisadores exigiram um intervalo de pelo menos oito anos entre o diagnóstico de TDAH e o início do declínio cognitivo. Isso torna menos provável que o “TDAH” fosse, na verdade, o começo silencioso de uma demência.

Por fim, uma metanálise publicada em 2026 na revista Brain Sciences, que reuniu estudos de coorte com cerca de 3,7 milhões de pessoas, estimou que adultos com TDAH têm aproximadamente duas vezes e meia o risco de demência por todas as causas (Baiamonte et al., 2026).

Calma: como ler esses números

Aqui entra uma parte que eu considero essencial, porque manchetes do tipo “TDAH triplica o risco de demência” assustam mais do que informam.

Risco relativo não é destino. Quando um estudo diz que o risco é “2,8 vezes maior”, ele está comparando grupos. No estudo israelense, isso significou passar de 7 para 13 casos a cada 100 pessoas. Olhando pelo outro lado: cerca de 87 em cada 100 adultos com TDAH não desenvolveram demência durante os 17 anos de acompanhamento.

Associação não é causa. Esses estudos são observacionais. Eles mostram que TDAH e demência andam juntos com mais frequência do que o acaso explicaria, mas não provam que um causa o outro. Os próprios autores pedem cautela antes de qualquer conclusão definitiva.

O achado sobre medicação também pede cautela. É animador que o risco não tenha aumentado em quem usava psicoestimulantes, mas isso ainda não prova que o remédio protege contra a demência. Pessoas em tratamento costumam ter mais acompanhamento médico, mais cuidado com outras doenças e, muitas vezes, rotinas mais organizadas. Ensaios clínicos ainda são necessários para responder essa pergunta. Por isso, a decisão sobre medicação continua sendo individual, feita com o psiquiatra, pesando benefícios e riscos de cada caso.

Por que o TDAH poderia aumentar o risco de demência?

Os pesquisadores trabalham com algumas hipóteses que provavelmente atuam juntas.

1. Fatores de risco que se acumulam ao longo da vida

Em 2024, a Comissão Lancet sobre demência identificou 14 fatores de risco modificáveis que, juntos, respondem por cerca de 45% dos casos de demência no mundo. Entre eles estão hipertensão, tabagismo, consumo excessivo de álcool, sedentarismo, obesidade, diabetes, depressão, traumatismo craniano, isolamento social, menor escolaridade, perda auditiva e colesterol LDL alto (Livingston et al., 2024).

Quem convive com TDAH sabe o quanto vários desses itens se cruzam com o transtorno. A impulsividade aumenta o risco de acidentes e de uso de substâncias. A dificuldade de manter rotinas atrapalha o exercício regular, a alimentação, o sono e até a constância em tomar remédios para pressão ou diabetes. A depressão é uma companheira frequente. Ou seja: o TDAH não tratado pode funcionar como um “multiplicador” de outros fatores de risco ao longo de décadas.

2. Menor reserva cognitiva

Reserva cognitiva é a capacidade do cérebro de compensar danos e continuar funcionando bem, construída com estudo, trabalho intelectual, vida social e estímulos ao longo da vida. As dificuldades de atenção e de funções executivas, somadas a trajetórias escolares e profissionais muitas vezes interrompidas, podem deixar essa reserva menor. Com menos “margem”, os efeitos do envelhecimento cerebral aparecem mais cedo.

3. Uma base biológica compartilhada

O achado genético do estudo de 2026 e pesquisas anteriores do mesmo grupo sugerem que TDAH e processos ligados ao Alzheimer podem compartilhar parte da sua neurobiologia. Essa linha ainda está em investigação, mas ajuda a explicar por que a associação aparece mesmo quando outros fatores são controlados.

É TDAH ou é o começo de uma demência?

Essa é, talvez, a dúvida mais delicada, e é onde a avaliação neuropsicológica faz toda a diferença. Esquecimento, desatenção e desorganização podem aparecer nos dois quadros, mas a história costuma ser diferente:

  • No TDAH, as dificuldades estão presentes desde a infância ou adolescência, mesmo que tenham sido compensadas por muito tempo. A pessoa “sempre foi assim”.
  • Em um quadro demencial, há uma mudança em relação ao funcionamento anterior: alguém que era organizado passa a se perder em tarefas que fazia bem, repete perguntas, se desorienta em lugares conhecidos ou muda de comportamento, humor e julgamento.

Na avaliação, investigamos a história de vida, aplicamos testes padronizados de memória, atenção, funções executivas e linguagem, e comparamos o desempenho com o esperado para a idade e a escolaridade. Isso permite diferenciar os quadros, identificar quando os dois coexistem e, principalmente, criar uma linha de base: um retrato do funcionamento cognitivo atual, que serve de referência para acompanhar mudanças ao longo dos anos.

O que fazer na prática

A boa notícia escondida nesses estudos é que existe muito espaço para agir. Se você tem TDAH, ou suspeita que tem:

  1. Busque diagnóstico, mesmo na vida adulta. Muitos adultos, especialmente mulheres e pessoas acima dos 50 anos, nunca foram avaliados. Nunca é tarde para entender o próprio funcionamento.
  2. Trate o TDAH de forma completa. Isso pode incluir medicação, quando indicada pelo psiquiatra, psicoterapia, reabilitação cognitiva e estratégias de organização para o dia a dia.
  3. Cuide do coração para cuidar do cérebro. Pressão, glicemia e colesterol controlados são proteção cognitiva. Use alarmes, caixas organizadoras de remédios e lembretes no celular para não depender só da memória.
  4. Movimente o corpo com regularidade. O exercício físico ajuda tanto nos sintomas de TDAH quanto na saúde cerebral a longo prazo.
  5. Olhe para a saúde emocional. Ansiedade e depressão não tratadas pesam no risco de demência e na qualidade de vida.
  6. Atenção ao álcool, ao cigarro e aos acidentes. Usar capacete, cinto e evitar excessos também é cuidar do cérebro.
  7. Mantenha o cérebro ativo e conectado. Aprender coisas novas e manter vínculos sociais fortalece a reserva cognitiva em qualquer idade.
  8. Faça acompanhamento ao longo do tempo. Para quem tem TDAH e está chegando aos 50 ou 60 anos, uma avaliação neuropsicológica de referência ajuda a identificar cedo qualquer mudança.

Para terminar

O TDAH não é uma sentença de demência. O que a ciência mostra é que o TDAH ignorado, sem diagnóstico e sem cuidado, pode cobrar um preço ao longo da vida, inclusive no envelhecimento cerebral. E mostra também o caminho: diagnóstico, tratamento e atenção aos fatores de risco que estão ao nosso alcance.

Se você é adulto com TDAH, desconfia que pode ter, ou percebeu mudanças na memória e na atenção de alguém que ama, uma avaliação neuropsicológica pode trazer clareza e direção. Atendo presencialmente em Leme/SP e on-line para todo o Brasil.


Referências

  • BAIAMONTE, L. et al. Attention deficit/hyperactivity disorder and risk of dementia: a systematic review and meta-analysis. Brain Sciences, v. 16, n. 6, p. 646, 2026. DOI: 10.3390/brainsci16060646.
  • LEFFA, D. T.; BAUER-NEGRINI, G. et al. Convergent clinical and genetic evidence linking ADHD to late-life cognitive impairment. JAMA Psychiatry, 2026. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2026.3165.
  • LEVINE, S. Z. et al. Adult attention-deficit/hyperactivity disorder and the risk of dementia. JAMA Network Open, v. 6, n. 10, e2338088, 2023. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2023.38088.
  • LIVINGSTON, G. et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet, v. 404, n. 10452, p. 572–628, 2024.

Quer entender melhor o seu funcionamento cognitivo?

A avaliação neuropsicológica diferencia TDAH de outros quadros, cria uma linha de base cognitiva e orienta o tratamento mais adequado para cada caso. Atendimento presencial em Leme/SP e online para todo o Brasil.

Agendar atendimento