Esquecer é Normal? O Que a Neurociência Diz Sobre a Memória

Por Tatiana Joly — Neuropsicóloga | CRP 06/95973

Você esquece onde deixou as chaves. Esquece o nome de alguém que acabou de conhecer. Esquece o que ia dizer no meio da frase. E, quase sempre, a primeira reação é a mesma: será que é a minha memória que não está bem?

Aqui está uma virada de perspectiva que costumo trazer para os pacientes no consultório: esquecer não é um defeito do cérebro, é uma função dele.

O esquecimento como parte do projeto da memória

Por décadas, a neurociência estudou quase exclusivamente como o cérebro guarda memórias. O esquecimento era tratado como o lado ruim da história, uma falha do sistema. Isso mudou com o trabalho dos pesquisadores canadenses Blake Richards e Paul Frankland, da Universidade de Toronto, que revisaram décadas de estudos sobre memória e propuseram uma ideia que reorganiza o assunto: a memória não existe para armazenar o máximo de informação possível pelo maior tempo possível. Ela existe para orientar e otimizar decisões inteligentes, mantendo apenas o que tem valor.

Ou seja: um cérebro que lembrasse de absolutamente tudo, com o mesmo nível de detalhe, não seria um cérebro mais eficiente, seria um cérebro sobrecarregado, incapaz de generalizar experiências e tomar decisões rápidas diante de situações novas.

Richards resume essa ideia de forma direta: "o objetivo real da memória é otimizar a tomada de decisão, e por isso é importante que o cérebro descarte detalhes irrelevantes para focar no que realmente ajuda a decidir no mundo real."

Por que o cérebro "apaga" informação de propósito

Um dos achados mais interessantes dessa linha de pesquisa vem do próprio laboratório de Frankland: a formação de novos neurônios no hipocampo (área central para a memória) parece favorecer o esquecimento, e não o contrário. Esse processo de neurogênese é mais intenso justamente na infância, o que ajudou a explicar por que seres humanos raramente guardam memórias de antes dos quatro anos de idade.

Esse achado reforça um ponto importante: esquecer envolve mecanismos biológicos ativos, específicos, distintos dos mecanismos que armazenam informação — não é a ausência de um processo, é a presença de outro. Uma revisão publicada na Nature Reviews Neuroscience em 2022, por Tomás Ryan e Paul Frankland, vai além: propõe que boa parte do esquecimento natural é reversível, e funciona como uma espécie de "modo de acesso desligado" das memórias — elas continuam armazenadas, mas temporariamente inacessíveis, e esse mecanismo é sensível ao quanto o ambiente mudou desde que a memória foi formada.

Há ainda uma explicação funcional simples e útil na prática clínica: memórias muito detalhadas nem sempre generalizam bem para novas situações. Uma memória que guarda cada detalhe específico de um evento não necessariamente ajuda a reconhecer o padrão em uma situação parecida, mas diferente — o que se lembra é o "resumo", a essência da experiência, e é justamente esse resumo que permite aprender com o passado sem ficar presa a ele.

Esquecimento normal x esquecimento que merece atenção

Isso não significa que todo esquecimento seja igual ou que a queixa de memória nunca mereça investigação. Significa, sim, que existe uma diferença importante entre:

  • Esquecimento normal: esquecer onde estacionou o carro, um compromisso menos relevante, um nome que vai voltar em alguns minutos, um detalhe de uma conversa antiga. Isso é esperado em qualquer idade e tende a ser mais frequente em períodos de estresse, sono ruim, sobrecarga de tarefas ou distração — não em déficit de memória propriamente dito.
  • Esquecimento que pede avaliação: quando passa a interferir na rotina, no trabalho, na segurança (esquecer de tomar remédios importantes, se perder em trajetos conhecidos, repetir perguntas recentes com frequência), ou quando é percebido por quem convive com a pessoa como uma mudança em relação ao funcionamento anterior.

É exatamente essa linha divisória que a avaliação neuropsicológica ajuda a traçar com precisão, não no "achismo", mas com testes padronizados que comparam o desempenho da pessoa com o esperado para sua idade, escolaridade e histórico.

Na prática clínica

No consultório, essa dúvida aparece de duas formas bem diferentes. Em pacientes mais jovens e adultos com TDAH, o esquecimento costuma estar ligado a falhas de atenção e de memória de trabalho, não a um processo degenerativo. Em pacientes idosos, a mesma queixa pode ter causas completamente distintas: desde o esquecimento benigno esperado do envelhecimento até quadros que exigem investigação e acompanhamento. Por isso a queixa "eu esqueço muito" nunca deveria, por si só, gerar diagnóstico — nem tranquilidade automática, nem alarme automático.

O que levar dessa reflexão

Esquecer faz parte do funcionamento saudável da memória. O cérebro foi desenhado para reter o que importa e liberar espaço do que não importa — isso é eficiência, não falha. Quando o esquecimento muda de padrão, de frequência ou começa a interferir na vida prática, aí sim vale buscar uma avaliação para entender o que está por trás.

Se essa dúvida faz parte da sua rotina, ou da rotina de alguém que você ama, marque uma avaliação neuropsicológica comigo, em Leme/SP ou online. Um olhar técnico faz toda a diferença entre a angústia da incerteza e a clareza de um diagnóstico.

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Em resumo

  • Esquecer não é uma falha do cérebro — é um mecanismo biológico ativo que existe para otimizar decisões
  • A memória guarda o "resumo" das experiências, não cada detalhe, e isso ajuda a generalizar aprendizados
  • Esquecimento normal: pontual, esperado em qualquer idade, mais frequente sob estresse, sono ruim ou sobrecarga
  • Esquecimento que pede avaliação: interfere na rotina, na segurança, ou é notado por quem convive com a pessoa
  • A avaliação neuropsicológica usa testes padronizados para traçar essa linha com precisão, sem achismo

Fontes

  • Richards, B. A., & Frankland, P. W. (2017). The Persistence and Transience of Memory. Neuron, 94(6), 1071–1084. Disponível em: doi.org/10.1016/j.neuron.2017.04.037
  • Ryan, T. J., & Frankland, P. W. (2022). Forgetting as a form of adaptive engram cell plasticity. Nature Reviews Neuroscience, 23, 173–186. Disponível em: doi.org/10.1038/s41583-021-00548-3
  • University of Toronto (2017). Why forgetting is really important for memory. U of T News. Disponível em: utoronto.ca/news
  • Knowable Magazine (2019). Why forgetting may make your mind more efficient. Disponível em: knowablemagazine.org

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