Ansiedade no Brasil: Por Que Somos o País Mais Ansioso do Mundo (e o Que Fazer)

Por Tatiana Joly — Psicóloga e Neuropsicóloga · CRP 06/95973

Se você sente que "todo mundo está ansioso" à sua volta, os números confirmam essa percepção. O Brasil carrega, há anos, o título nada honroso de país mais ansioso do mundo, e entender o que está por trás disso é o primeiro passo para lidar melhor com essa emoção tão comum quanto mal compreendida.

Neste artigo você vai entender três coisas: por que o Brasil ocupa essa posição no ranking mundial, por que a ansiedade, quando regulada, não é vilã, e quais caminhos de tratamento realmente funcionam.

O Brasil e o topo do ranking mundial de ansiedade

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil concentra a maior prevalência de transtornos de ansiedade do planeta, com cerca de 18,6 milhões de pessoas afetadas — o equivalente a 9,3% da população. Pesquisas mais recentes, como a Covitel 2023, elevam esse retrato: quase 27% dos brasileiros relatam diagnóstico de ansiedade, número que confirma a tendência de alta registrada globalmente desde a pandemia.

O impacto vai além da saúde mental individual e chega ao mercado de trabalho. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que, somente em 2024, mais de 440 mil brasileiros se afastaram do trabalho por transtornos mentais — o dobro do registrado dez anos antes. Só os afastamentos por ansiedade somaram 141 mil casos, salto de 400% em uma década. Não é à toa que "ansiedade" foi eleita a palavra do ano no Brasil em 2024, segundo pesquisa do Instituto IDEIA em parceria com a CAUSE.

Entre os fatores mais associados a esse cenário estão o excesso de telas e redes sociais, o sedentarismo, a alimentação desregulada, o enfraquecimento dos laços sociais e a cultura da produtividade constante. Nenhum desses fatores age sozinho — eles se somam e se retroalimentam, criando um ambiente fértil para que a ansiedade saia do lugar de alerta útil e passe a atrapalhar a vida.

Afinal, ansiedade é ruim?

Aqui vai uma virada que costumo trazer para meus pacientes: a ansiedade, na sua origem, não é uma falha do organismo — é um mecanismo de sobrevivência. Ela é a emoção que nos avisa sobre um perigo, que nos prepara para uma entrevista importante, que nos mantém atentos antes de uma prova ou de uma decisão relevante.

O problema não é sentir ansiedade. O problema é quando ela deixa de ser proporcional ao estímulo e passa a operar de forma automática, desregulada, ocupando espaço demais na rotina.

A literatura sobre regulação emocional é clara nesse ponto: regular uma emoção não significa eliminá-la ou controlá-la à força, mas aprender a reconhecê-la e responder a ela de forma mais consciente e flexível. Regulação emocional eficaz reduz o sofrimento, fortalece a resiliência e melhora as relações, enquanto estratégias como o evitamento (fugir da fonte do desconforto) até aliviam a ansiedade a curto prazo, mas a mantêm e muitas vezes a aumentam a longo prazo.

Em outras palavras: a meta não é "zerar" a ansiedade. É recuperar a capacidade de ouvi-la sem ser dominado por ela.

Quando buscar tratamento

Alguns sinais indicam que a ansiedade saiu do território adaptativo e merece atenção profissional:

  • Preocupação excessiva e difícil de controlar, na maior parte dos dias
  • Sintomas físicos frequentes: tensão muscular, insônia, taquicardia, sensação de "nó na garganta"
  • Evitação de situações, lugares ou conversas por antecipação de desconforto
  • Dificuldade de concentração ou sensação de "mente em branco"
  • Impacto perceptível no trabalho, nos estudos ou nas relações

O tratamento da ansiedade costuma combinar diferentes frentes, sempre ajustadas à história de cada pessoa:

Psicoterapia. Abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Análise do Comportamento (AC) trabalham diretamente a relação entre pensamento, emoção e comportamento, ajudando a identificar distorções cognitivas e a construir respostas mais adaptativas diante do que gera ansiedade.

Avaliação neuropsicológica. Em muitos casos, sintomas de ansiedade se misturam a questões de atenção, memória ou funções executivas, especialmente em adultos com TDAH não diagnosticado, por exemplo. Uma avaliação neuropsicológica ajuda a entender com precisão o que está por trás do quadro, evitando tratamentos genéricos e direcionando a intervenção certa.

Psicoeducação. Entender como a ansiedade funciona no corpo e na mente já é, por si só, uma ferramenta terapêutica. Saber nomear o que se sente reduz a sensação de descontrole.

Mudanças de estilo de vida. Sono regular, atividade física, redução do uso excessivo de telas e fortalecimento de vínculos sociais entram como aliados — não como substitutos do acompanhamento profissional, mas como parte do cuidado integral.

Acompanhamento médico, quando indicado. Em alguns quadros, o suporte psiquiátrico e o uso de medicação fazem parte do tratamento. Ainda existe muito tabu em torno disso no Brasil, mas a decisão deve ser sempre individualizada e conversada com um profissional.

Um convite à reflexão

Se o Brasil é o país mais ansioso do mundo, isso não é uma sentença individual — é um retrato coletivo que também pode ser transformado individualmente, um cuidado de cada vez. Reconhecer a ansiedade como uma emoção legítima, entender seus sinais e buscar ajuda quando ela ultrapassa o papel de aliada são passos concretos para viver com mais equilíbrio.

E você, já parou para observar como a ansiedade se manifesta no seu dia a dia? Conta aqui nos comentários ou me manda uma mensagem no Instagram @tatianajolyneuropsi: eu adoro ler essas histórias.


Em resumo

  • O Brasil tem a maior prevalência mundial de ansiedade: cerca de 18,6 milhões de pessoas afetadas, 9,3% da população segundo a OMS
  • Afastamentos do trabalho por ansiedade subiram 400% em uma década, somando 141 mil casos só em 2024
  • Ansiedade não é uma falha — é um mecanismo de sobrevivência; o problema é quando ela deixa de ser proporcional ao estímulo
  • A meta do tratamento não é eliminar a ansiedade, mas regulá-la: reconhecê-la e responder a ela de forma consciente
  • Tratamento combina psicoterapia, avaliação neuropsicológica quando indicado, psicoeducação, mudanças de estilo de vida e, em alguns casos, acompanhamento médico

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Referências: Organização Mundial da Saúde (OMS) — dados sobre prevalência de transtornos de ansiedade no Brasil; Ministério da Previdência Social (2025), via Agência Brasil; Instituto IDEIA/CAUSE (2024), pesquisa "Palavra do Ano 2024"; Observatório de Saúde Pública da Umane, Pesquisa Covitel 2023; Artmed (2024), "Regulação emocional: o que é e como trabalhar na psicoterapia?"; PUC-Rio, Especialização em Neurociências (2025), "Regulação emocional: entendendo as emoções e aprendendo a lidar com elas".