Alterações de comportamento no Alzheimer: como compreender e lidar no dia a dia
Por Tatiana Joly — Neuropsicóloga | CRP 06/95973
Quando pensamos em doença de Alzheimer, a primeira dificuldade que geralmente vem à mente é o esquecimento. Mas, para muitas famílias, algumas das situações mais difíceis da doença não começam com uma pergunta esquecida.
Elas aparecem em frases como:
- “Quero ir para casa.”
- “Roubaram minhas coisas.”
- “Eu ainda não comi.”
- “Não vou tomar esse remédio.”
Ou em mudanças como irritabilidade, agitação, desconfiança, alterações no sono, dificuldade para permanecer sozinho e episódios de desorientação. Esses comportamentos podem gerar conflitos e deixar a família sem saber como agir. É comum tentar explicar, corrigir, argumentar ou mostrar para a pessoa que aquilo que ela está dizendo não corresponde ao que realmente aconteceu.
Porém, conforme a demência progride, a capacidade de compreender uma situação, lembrar o que acabou de acontecer, interpretar o ambiente e comunicar uma necessidade também pode se modificar. A Organização Mundial da Saúde destaca que as demências podem afetar não apenas memória e pensamento, mas também comunicação, humor, comportamento e capacidade de realizar atividades cotidianas. Organização Mundial da Saúde
Por isso, uma pergunta pode ajudar a família a mudar a forma de olhar para essas situações:
Em vez de perguntar apenas “como faço esse comportamento parar?”, talvez seja necessário perguntar “o que pode estar acontecendo com essa pessoa neste momento?”
Alzheimer não é apenas perda de memória
A doença de Alzheimer é a causa mais comum de demência, mas seus efeitos não ficam restritos à memória. Ao longo da evolução da doença, podem surgir alterações na orientação, julgamento, linguagem, capacidade de planejamento, percepção das situações e comportamento. Organização Mundial da Saúde
A pessoa pode se tornar mais ansiosa, apática, irritada ou desconfiada. Também podem ocorrer agitação, comportamentos repetitivos, alterações do sono, delírios, alucinações e episódios em que ela caminha ou tenta sair sem conseguir se orientar adequadamente. Organização Mundial da Saúde
Isso não significa que todas as pessoas com Alzheimer apresentarão os mesmos comportamentos.
Cada pessoa possui uma história, uma personalidade, condições clínicas, ambiente familiar e estágio da doença diferentes. Portanto, o comportamento precisa ser compreendido dentro desse contexto.
“Quero ir para casa” — mesmo estando em casa
Essa é uma situação que pode ser particularmente intrigante para a família.
A pessoa está dentro da própria residência e insiste:
- “Preciso ir embora.”
- “Minha mãe está me esperando.”
- “Quero voltar para minha casa.”
O impulso de “ir para casa” é descrito entre os comportamentos que podem aparecer em pessoas com demência, juntamente com inquietação, dificuldade para localizar cômodos familiares e sensação de estar perdida. Alzheimer’s Association
Nesses momentos, responder repetidamente:
“Mas você já está em casa!”
pode não resolver a angústia.
Para aquela pessoa, naquele momento, a experiência de estar perdida ou fora de lugar pode ser real.
Em algumas situações, é mais útil acolher primeiro a emoção e só depois tentar redirecionar o comportamento.
Perguntas simples podem ajudar:
- “Você está preocupada com alguma coisa?”
- “Está sentindo falta de alguém?”
- “Vamos sentar um pouco comigo?”
Uma atividade conhecida, uma música, fotografias ou uma tarefa simples também podem ajudar a redirecionar a atenção. Atividades significativas e adaptadas às capacidades da pessoa podem contribuir para o bem-estar e, em alguns casos, reduzir inquietação e agitação. Alzheimer’s Association
E há um ponto essencial: se existe risco de a pessoa sair sozinha e se perder, a família precisa pensar também em estratégias de segurança e supervisão adequadas à situação. Alzheimer’s Association
“Roubaram minhas coisas”
Outro comportamento muito difícil para as famílias é a acusação de roubo.
A pessoa guarda dinheiro, documentos, joias ou outros objetos e depois não consegue encontrá-los.
Como não se lembra de onde colocou aquilo, pode tentar construir uma explicação para o desaparecimento:
- “Alguém pegou.”
- “Minha filha roubou.”
- “A cuidadora está mexendo nas minhas coisas.”
Para quem recebe a acusação, isso pode ser doloroso. Principalmente quando a pessoa acusada é justamente aquela que está dedicando grande parte do seu tempo aos cuidados. Entretanto, tentar vencer uma discussão apresentando provas nem sempre modifica aquilo que a pessoa está vivenciando naquele momento.
Pode ser mais útil reconhecer sua preocupação:
“Você está preocupada porque não encontrou sua carteira. Vamos procurar juntos.”
Também pode ajudar manter locais previsíveis para objetos importantes, diminuir mudanças desnecessárias no ambiente e observar onde a pessoa costuma guardar determinados itens.
Desconfiança, ideias delirantes e outros comportamentos podem ocorrer nas demências, e a orientação da OMS aos cuidadores é identificar as mudanças, observar possíveis gatilhos e experimentar formas de resposta que provoquem menos sofrimento para a pessoa e para quem cuida. Organização Mundial da Saúde
“Eu ainda não comi”
A pessoa terminou o almoço há pouco tempo e pergunta:
“Quando nós vamos almoçar?”
Ou afirma:
“Hoje ninguém me deu comida.”
Novamente, é fácil interpretar a situação apenas pelo conteúdo da frase.
Mas uma dificuldade de registrar ou recuperar acontecimentos recentes pode fazer com que a pessoa não se lembre da refeição que acabou de fazer.
A família pode utilizar estratégias simples, dependendo das condições da pessoa: manter horários mais previsíveis, registrar determinadas atividades da rotina e observar padrões de comportamento.
Também é importante não atribuir automaticamente qualquer mudança à demência. Alterações de apetite, desconfortos físicos, problemas clínicos e medicamentos também podem interferir na alimentação e no comportamento.
Perder-se em lugares conhecidos
Um dos aspectos que mais exige atenção é a mudança na capacidade de orientação.
A pessoa pode começar a se confundir em trajetos anteriormente familiares ou ter dificuldade para localizar lugares que conhecia bem. A OMS inclui entre os possíveis sinais da demência perder-se ao caminhar ou dirigir e apresentar confusão mesmo em lugares familiares. Organização Mundial da Saúde
Quando isso acontece, a questão deixa de ser apenas cognitiva e passa a envolver diretamente a segurança.
Dependendo do grau de comprometimento, pode ser necessário rever a possibilidade de a pessoa sair sozinha, estabelecer formas de identificação, comunicar pessoas próximas e avaliar recursos de localização e supervisão.
O nível de proteção necessário deve considerar as capacidades atuais daquela pessoa — não apenas aquilo que ela conseguia fazer no passado.
“Não vou tomar esse remédio”
A recusa de medicamentos também pode transformar a rotina familiar em um conflito diário. Mas antes de interpretar a situação como simples “teimosia”, é importante tentar compreender o motivo.
- A pessoa entendeu para que serve aquele medicamento?
- Reconhece quem está oferecendo?
- Está com dificuldade para engolir?
- Está com medo?
- Está desconfiada?
- A rotina mudou?
- Está recusando apenas o medicamento ou outros cuidados também?
A resposta pode mudar completamente a estratégia.
Comunicações mais simples costumam ser mais fáceis de compreender. A OMS recomenda falar claramente, apresentar uma informação de cada vez, utilizar frases curtas e reduzir distrações ambientais ao conversar com pessoas com demência. Organização Mundial da Saúde
Ao mesmo tempo, medicamentos não devem ser suspensos, alterados, triturados ou administrados de outra forma por iniciativa própria. Dificuldades persistentes precisam ser discutidas com o médico ou profissional responsável pela prescrição.
Agitação, irritabilidade e agressividade: procure o que pode estar por trás
Uma mudança comportamental pode ser uma forma de expressar algo que a pessoa já não consegue explicar adequadamente.
Antes de concluir que ela está simplesmente “difícil”, vale investigar algumas possibilidades:
Dor. Fome. Sede. Cansaço. Constipação. Necessidade de ir ao banheiro. Calor ou frio. Excesso de barulho. Mudança de rotina. Ambiente desconhecido. Medo. Frustração. Efeitos de medicamentos. Infecção ou outro problema clínico.
A Alzheimer's Association recomenda justamente observar conforto físico, dor, fome, sede, constipação, bexiga cheia, fadiga, infecções e estímulos ambientais diante de episódios de agitação. Ambientes mais tranquilos, com menos ruído e distrações, também podem ajudar em determinadas situações. Alzheimer’s Association
Isso nos leva a um princípio importante:
Comportamento também pode ser comunicação.
Quando a linguagem e outras habilidades cognitivas estão comprometidas, o comportamento pode se tornar uma das formas pelas quais uma necessidade aparece.
Antes de corrigir, tente compreender
Isso não significa concordar com tudo o que a pessoa diz. Também não significa ignorar comportamentos que oferecem risco. Significa compreender que corrigir um fato e acolher uma experiência são coisas diferentes.
Se a pessoa acredita que alguém roubou sua bolsa, talvez uma discussão longa sobre por que isso é impossível apenas aumente a ansiedade.
Se ela quer “voltar para casa”, repetir vinte vezes que aquela é a casa dela pode não diminuir sua sensação de insegurança. Às vezes, uma abordagem mais eficaz começa com:
“Eu percebi que isso está te preocupando.”
E continua tentando descobrir o que pode estar gerando aquela reação.
A OMS orienta cuidadores a observar os gatilhos, adaptar a resposta e utilizar comunicação simples, paciente e respeitosa. Organização Mundial da Saúde
Uma mudança súbita de comportamento merece atenção
Existe uma diferença importante entre alterações que surgem gradualmente ao longo da evolução de uma demência e uma pessoa que muda de comportamento abruptamente.
Uma agitação que apareceu de repente, confusão muito maior do que a habitual, sonolência diferente, agressividade incomum ou outra alteração aguda não deve ser automaticamente atribuída ao Alzheimer.
Problemas físicos e efeitos medicamentosos podem contribuir para alterações comportamentais, e recomenda-se avaliação médica especialmente quando os sintomas surgem subitamente. Portanto:
“É da demência” não deve ser a resposta automática para toda mudança de comportamento.
E a família que está cuidando?
Existe ainda uma pessoa que muitas vezes desaparece dessa conversa: o cuidador.
Responder às mesmas perguntas inúmeras vezes, lidar com acusações, supervisionar refeições, medicamentos e segurança, administrar consultas e ainda enfrentar mudanças de personalidade pode produzir uma sobrecarga considerável.
A OMS reconhece o impacto psicológico e emocional que o cuidado de pessoas com demência pode causar e recomenda intervenções de apoio aos cuidadores, incluindo psicoeducação e outras estratégias psicossociais. Por isso, orientar a família não significa apenas ensinar técnicas para lidar com a pessoa com Alzheimer. Também significa ajudá-la a entender a doença, dividir responsabilidades quando possível, reconhecer seus próprios limites e buscar apoio.
Cuidar de quem cuida também faz parte do tratamento.
Como a avaliação neuropsicológica pode contribuir?
A avaliação neuropsicológica não observa apenas se uma pessoa “lembra ou esquece”.
Ela investiga diferentes funções cognitivas, como memória, atenção, linguagem, funções executivas e habilidades visuoespaciais, relacionando os resultados à história clínica e ao funcionamento cotidiano. Em um quadro de alterações cognitivas, compreender quais funções estão comprometidas, quais permanecem preservadas e como essas mudanças interferem na autonomia pode contribuir para a compreensão clínica do caso e para o planejamento de orientações mais individualizadas.
Além disso, quando a família relata mudanças comportamentais, essas informações também fazem parte da compreensão do funcionamento da pessoa. Porque dois pacientes com o mesmo diagnóstico podem apresentar necessidades muito diferentes.
Informação também é uma forma de cuidado
Conviver com o Alzheimer exige adaptações. Aquilo que funcionava anteriormente pode deixar de funcionar. Explicações longas podem precisar dar lugar a frases mais simples. A tentativa de convencer pode precisar dar lugar ao acolhimento. A independência pode precisar ser reorganizada para preservar segurança sem retirar capacidades que a pessoa ainda possui. Nem sempre haverá uma resposta perfeita.
Mas compreender que determinados comportamentos podem estar relacionados às alterações provocadas pela doença pode ajudar a família a responder de maneira diferente. Antes de corrigir, tente compreender. Antes de interpretar como provocação, procure uma possível necessidade. Antes de dizer “ela faz isso porque quer”, considere aquilo que talvez ela já não consiga compreender, lembrar ou comunicar.
No Alzheimer, cuidar não significa apenas fazer pelo outro.
Significa também aprender novas maneiras de estar com ele.
Em resumo
- O Alzheimer não afeta apenas a memória: também pode alterar orientação, linguagem, julgamento, humor e comportamento
- Frases como "quero ir para casa", "roubaram minhas coisas" ou "eu ainda não comi" podem refletir uma experiência real de confusão, insegurança ou dificuldade de lembrar
- Antes de corrigir ou discutir, vale acolher a emoção e tentar descobrir o que pode estar por trás do comportamento
- Dor, fome, sede, cansaço, constipação, infecções, medicamentos e excesso de estímulos podem contribuir para agitação e irritabilidade
- Mudança súbita de comportamento merece avaliação médica e não deve ser atribuída automaticamente à demência
- Medicamentos não devem ser suspensos, alterados ou triturados por conta própria; a recusa persistente deve ser discutida com o médico responsável
- Quem cuida também precisa de apoio, informação e divisão de responsabilidades
Fontes
- Organização Mundial da Saúde (WHO). Dementia. Atualizado em julho de 2026. Organização Mundial da Saúde
- Organização Mundial da Saúde (WHO). Dementia: Information for caregivers. Organização Mundial da Saúde
- Organização Mundial da Saúde (WHO). iSupport for Dementia: Training and support manual for carers of people with dementia. Organização Mundial da Saúde
- Alzheimer's Association. Wandering. Alzheimer’s Association
- Alzheimer's Association. Anxiety & Agitation.
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